O Fim da Película

  Originalmente elas eram pouco mais que máquinas fotográficas adaptadas, nada era automático, um bom cinegrafista era o sujeito que conseguia girar a manivela da filmadora o mais próximo possível dos 18 quadros por segundo, que eram o padrão da época. Com o tempo a tecnologia foi se aprimorando, as câmeras de caixas pretas singelas viraram verdadeiras obras de arte. Cada uma com suas idiossincrasias, diretores eram famosos por mostrarem fidelidade canina para com sua marca preferida. Formatos como Cinerama, Technicolor e tantos outros disputavam mercado. Do 35mm o cinema passou entre outros pelo 16mm, 70mm, iMax e o equivalente das câmeras digitais e vlogs dos anos 60/70, o 8mm.

  Todos esses formatos tinham em comum o preço alto e a complicação de revelar, copiar, degradar, etc. Com a chegada das câmeras digitais isso foi mudando. Inicialmente a qualidade de imagem ainda era ruim, mas logo a tecnologia no cinema alcançou a película, assim como na fotografia. O ganho em se trabalhar com o digital é imenso. De cara temos:

- Revisão instantânea das cenas, você vê na hora o que foi filmado;
- Combinação com cenários virtuais e outros marcadores – assim não é preciso filmar tudo de novo se o sujeito estiver olhando pro lado errado.
- Fim do custo de digitalização dos negativos para a fase de pós-produção e efeitos visuais
- Fim da degradação do negativo, sendo digital toda cópia é idêntica à original
- HD é muito mais barato que película

Em termos de qualidade, o top hoje é a Red, uma empresa especializada em câmeras digitais high-end, como a Red Epic-M:
  Com resoluções de até 5K, 5120×2700, gravando em até 120 frames por segundo. Custa US$56 mil e vale cada centavo. Kevin Smith filmou Red State com uma Red. No final do dia levava os HDs para casa, editava as cenas no Mac e no dia seguinte mostrava pra equipe. Dois dias após o final das gravações o filme estava pronto e editado.

  Peter Jackson comprou 30 Reds para fazer O Hobbit. Isso seria impensável com câmeras tradicionais, o custo das câmeras, do filme e o atraso gerado pelo excesso de trabalho nos laboratórios de revelação anularia qualquer ganho de ter mais de 2 câmeras. Por isso tudo a idéia romântica das velhas câmeras de filme deixou de ser atraente. Nos últimos anos a venda de máquinas novas caiu praticamente a zero, os fabricantes, Arri, Panavision e Aaton basicamente vivam de manutenção nas câmeras existentes e dos modelos digitais.

  Agora se tornou oficial. De forma calma e silenciosa cessaram a produção das filmadoras tradicionais. Por um bom número de anos continuarão a dar manutenção nas existentes, os fabricantes como Kodak e Fuji continuarão a produzir e vender filme, mas será só uma questão de tempo para o 35mm ter o mesmo destino do 8mm, que foi fundamental para o surgimento de gente como George Lucas e Steven Spielberg, mas hoje foi muito bem substituído pelas filmadoras HD e FullHD de custo irrisório. Hoje temos muito mais cineastas em potencial brincando a sério de fazer cinema do que jamais tivemos, quando era caro, complicado e trabalhoso fazer o filme mais simples.

  Que a película descanse em paz, e que o cinema receba de braços abertos a primeira geração de cineastas que não precisará reaprender fotografia, pois terão crescido com o digital.

Fonte: Techcrunch